ARTE | 22 de Julho 2021 | Júlia Duvoisin

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A maior galeria de arte urbana de Santa Catarina

O Morro da Mariquinha, localizado na parte central de Florianópolis, possui uma das vistas mais lindas da Ilha e carrega consigo a história da cidade em seus mais de 100 anos de existência. Mesmo sendo um espaço que contém em sua identidade a degradação ambiental, desigualdade e exclusão sócio-espacial, a Mariquinha nunca foi objeto de atenção de entidades sociais. Foi assim que, no começo de 2020, o Projeto Cidades Invisíveis decidiu que seria o Morro da Mariquinha seu novo desafio de empoderamento social.

Em sua primeira visita ao Morro, Samuel dos Santos, fundador e diretor do Projeto, se encantou com a comunidade e percebeu que o local poderia se transformar completamente por meio da arte e da educação. Hoje, mais de um ano depois dos primeiros passos do Projeto Cidades Invisíveis na Comunidade, é possível perceber que a visão de Samuel se tornou realidade.

Durante o ano de 2020, mais de 100 artistas deixaram a sua marca nos muros das residências da Mariquinha. Em conjunto com o artista Rodrigo Rizo e Street Art Tour, movimento de valorização, produção e difusão de arte urbana em Florianópolis, o Projeto Cidades Invisíveis conseguiu transformar a comunidade na maior galeria de arte urbana de Santa Catarina.

Trazendo as raízes e a história do Morro, os grafites se espalham por toda a Mariquinha, deixando um rastro de beleza e vida. O investimento em cultura na comunidade teve o intuito de desenvolver capital cultural, ou seja, fomentar a cultura de forma a promover a ascensão social da população local. Além de desmistificar o olhar da sociedade em relação a comunidades em situação de vulnerabilidade social. Para Ana Beatriz Correia, moradora da Mariquinha, foi exatamente isso que a galeria de arte promoveu em sua vida e na comunidade:

“ Sou nascida, criada e vivo na Mariquinha. Durante meu crescimento, eu ouvia pessoas falando que não iam subir no morro porque só tinha traficante, porque tinham medo e eu era excluída. Eu nunca consegui ver a minha comunidade da maneira que eu vejo hoje. Depois do choque de realidade que tomei com o Cidades, com os painéis, com as minhas vivências com os artistas, eu vi que o preconceito estava em mim também, por aceitar as críticas que vinham do lugar onde moro. Foram eles que mudaram a minha visão sobre mim mesma, e hoje eu tenho o maior orgulho do mundo de dizer de onde eu venho”.

Um princípio importante na criação dos Grafites da Galeria de Arte Urbana foi conservar a história de luta da comunidade. O objetivo das pinturas era integrar o local por meio de sua trajetória.

Uma das personalidades homenageadas foi a Dona Rosa, com uma pintura ao lado da Bica de Água, local onde as mulheres lavadeiras da comunidade utilizavam antigamente.

Retrato feito por @artedobrunobarbi - foto por: Samuel Dos Santos

Dona Rosa, com suas mãos de benzedeira e parteira, tratou desde o nascer, uma comunidade com mais de 2500 pessoas. Seu retrato eternizado nos muros da Mariquinha trouxe grande emoção, não somente para a sua família, mas também para todos os moradores, gratos pela existência dessa personalidade da Comunidade. Para Sabrina Correia, neta de Rosa, a pintura possibilitou recuperação de uma parte do Morro que ela tinha perdido há muito tempo:

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“Antes de ter o painel da minha avó, eu não ia para o lado de lá. Nunca gostei, me transmitia uma carga negativa. Mas quando ela surgiu ali, eu comecei a precisar daquele espaço. Quando o Bruno, artista da obra, nos chamou para vê-la pronta, foi muito marcante para a família inteira. Nós sabíamos da importância dela, mas não tínhamos noção que para as pessoas de fora ela tinha esse impacto também. Eu me sinto muito privilegiada, agora ela está na Mariquinha para sempre”.

Durante o processo de pintura do Morro, muitos artistas se integraram à comunidade. Sabrina Correia disponibilizou sua casa para ser o QG dos artistas e no meio de suas 12 calopsitas, cachorros e galinhas, ela e os mais de 100 artistas criaram laços que perpetuam até hoje. O carinho de Cláudio, morador da Mariquinha, de 13 anos, em lembrar do sentimento de produzir arte junto com o seu ídolo,  “Vejam”. A amizade que Ana Beatriz encontrou na grafiteira Tuane. O auto reconhecimento de Janete no trabalho da artista Amanda, são todos exemplos dos impactos e dos encontros que a arte causou para a Mariquinha.

Sabrina com seus amigos artistas - Foto: Desconhecido

Foram muitas as conquistas que a Galeria de Arte da Mariquinha trouxe para a comunidade, para seus moradores e para o cenário cultural de Florianópolis. As artes permitiram que a Mariquinha passasse a viver a noção de comunidade em seu sentido literal: um local integrado, alegre, multicultural e, principalmente, vivo!

Qualquer pessoa que deseja conhecer os graffitis, pode contatar o Projeto Cidades Invisíveis para fazer o Rolê da Mariquinha, tour guiado pela comunidade.

Júlia Duvoisin

Estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Redatora do Projeto Cidades Invisíveis

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